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O Primeiro Voo Solo
Quarta-Feira, 28 de Abril de 2010 - por Umberto de Campos Goularte
Acompanhem o texto da Maria de Fátima Norwood. Ela brevetou no Aeroclube de Brasília já faz algum tempo. Além de voar, ela também gosta de escrever e, acredito, vai inspirar muitos dos nossos alunos em perseguir esse momento mágico da nossa escola que é o primeiro vôo solo.

Boa leitura a todos

Umberto de Campos


O PRIMEIRO VÔO SOLO Às 5h10min fui acordada com as batidas na janela do acampamento. Era o instrutor me chamando para prepa­rar o avião. A chuva do dia an­terior invadira a noite, justificando uma inspeção e cheque mais demorados. Insisti para voar cedo, não queria pegar a turbulência de ar quente ao meio-dia. Comecei pela cabine, desci e fui cuidar da vistoria externa, come­çando pela asa esquerda. Avião checado, cadeiras e cin­tos ajustados, check-list feito, taxiamos para a cabe­ceira da pista e decolamos às 6hl0min. Lá de cima observávamos os moradores de Luziânia subindo as escadarias da igreja, alheios ao perigo que corriam em pleno domin­go de missa. Estávamos a apenas 1000 pés, altitude ne­cessária para treinarmos mais pousos. Ainda temia o pouso: a pista se abria rapidamente em minha frente, convidando-me a quebrar o avião e, mui­tas vezes, a audição se preparava para ouvir a explo­são da aeronave contra o solo, batizando o primeiro toque. Era o momento crítico da coisa. No entanto, no afã de salvar aquela massa metálica eu, a uns seis metros do solo, começava a puxar o manche e fazer o diabólico "arredondamento". Num instante mágico, sentia no lugar da pancada da perda, o toque suave dos três pontos no concreto armado. Retirava o resto de potência que havia, o avião rolava no eixo da pista seguido do olhar intrigante do instrutor. Eu havia pou­sado bem. O instrutor voou comigo uns cinqüenta minutos. De repente, ao aterrissarmos, pediu-me para frear o avião na interseção da pista e, inabalável, me ordenou para subir sozinha. Fiquei boquia­berta. Não era o momento para eu solar: duvidei da res­ponsabilidade do instrutor. Ele iria perder uma aluna e o aeroclube um avião. Contudo, com todos os dia­bos, havia chegado o momento de eu assumir a mi­nha casa. Era difícil coordenar meus pensamentos. Tive não mais do que quatro minutos para me decidir. Rolei para a cabeceira da pista. As mãos pesavam, meus olhos observavam o pai­nel de instrumentos um a um, como se fosse a primei­ra vez que os via. Estavam todos despidos. Riam da minha cara! O altímetro lembrava-me que iria me le­var a seis mil pés de altura; o Climb com sua agulha me impunha equilíbrio e o velocímetro... Ah, esse mo­tejava mesmo! Ostentava em seu peito os 85 MPH cra­vados para serem cobrados no instante da tortura do pouso. Parei a 45º da cabeceira da pista e comecei o cheque. Meu Deus... o cheque final! Tudo funcionava bem: a pressão do óleo deveria me auxiliar, descendo, e o motor deveria vibrar, mas nenhum defeito aconte­cia para que eu pudesse voltar ao hangar. Sentia como se um imenso peso estivesse sendo colocado sobre meus ombros. A nuca doía. Chequei a área, alinhei-me na pista 11, freios soltos, um olho na velocidade, o outro no eixo da pista, pés atentos aos pe­dais: dei toda potência e saí do solo a 65 MPH. A pri­meira vitória do instrutor já estava conquistada. A 200 pés recolhi os flaps; a 1000 pés desliguei a bomba elétri­ca, a pressão estava ok e se não estivesse ok seria pa­ne. Não era o momento para se pensar em duas pa­nes, porque eu já era uma pane em potencial. Nivelei o avião ainda na curva e fui fazendo o cheque pré-pouso. Cantei o cheque alto. Ouvia minha voz dentro da cabine. Nunca prestei atenção em minha voz (forçosamente encontrava-me comigo mesma mas não era o momento para filosofia). Redu­zi para 2000 RPM e fiz a curva. Final livre, pista livre. Fui preparando-me para o instante cruciante do pouso. A velocidade estava cravada em 85 MPH, meu re­ceio era a velocidade oscilar. A pista se aproximou ra­pidamente. Eu não podia quebrar o avião. Alguém fa­lou em pouso? Cadê o pouso? O mau arredondamen­to comeu. Flutuei três vezes! Cada pancada que o trem de pouso dava contra o solo minha adrenalina entrava em parafuso. De repente, percebi que a pista estava acabando, dei toda a potência e arremeti novamente. Comecei a descontrolar-me. Minhas pernas tremiam, minha cabeça doía. As mãos, pesando a chumbo, temiam em tocar a mais os instrumentos com receio de desequilibrá-los. Estava em pânico! Mas o avião ganhava altura e eu tinha que pilotá-lo. Desejei estar no ano 2030, 2040, sei lá, onde um computador de bordo - isento de falhas técnicas - abortasse as minhas decolagens, ou autorizasse meus pousos quando necessário fosse. Imaginei meu instrutor lá em baixo envolto pela inquietação quando a aeronave parecia difícil de socorrer. E eu, embrenhada na manhã de domingo simplesmente não conseguia pousar. Lembrei-me das palavras de um outro instrutor no debriefing de final de tarde: "... Ficou nervosa por alguma falha, navegue para a área de manobras, esfrie a cabeça e volte”. Não, isso não! Se eu pilotasse pra mais longe, naquele estado, acabaria entrando na terminal Brasília e o CINDACTA I me expulsaria para os quintos, se antes eu não fosse derrubada, em parafuso, pela esteira de turbulência dos Boeings. Não suportava mais aquela sofreguidão de não poder evitar o pouso. Fui nivelando e fazendo o cheque pré-pouso na “perna do vento". Debrucei-me para a Terra lá embaixo: o nº 11 da pista eram dois dentes brancos em gargalhadas. Sentia-me ridícula. Eu não estava acreditando no que acontecia. Girei a “perna base”,alinhei o avião na reta final, a velocidade oscilava... Não podia oscilar! Tive vontade de arrancar o velocímetro e jogá-lo altitude abaixo. Mas a angústia me fazia acariciar os instrumentos e eu, delicadamente, tocava o manche, compensador e pedais num pedido que era um afago maternal, quase uma prece para que ele pousasse, como pousam todos aviões do mundo lotados de passageiros. Era um filho que estava sob os meus pés, mole, afundando com a queda; me pedia socorro e eu o tocava como se toca todo recém-nascido. Sentia o vibrar das suas “artérias de metal e um coração potente pulsando com tubos e velas”. Toquei na pista. Deixei-o rolar livre. Retirei o resto de potência. Eu estava em terra firme com o meu instrutor aplaudindo o banho de óleo queimado que outros "manicacas” preparavam para mim. Eu havia solado. Outros vôos solos sucederam-se e, nos momentos de reflexão, percebi o quanto de reserva temos guardado dentro de nós possibilitando-nos a ultrapassagem dos nossos limites em busca da excelência. Deixar para trás os muros que a condição humana ditou que erguêssemos. Verdadeiramente, o autoconhecimento é uma das tarefas mais difíceis de se enfrentar. Ao voar, percebo que vou além dos limites do corpo, esse corpo frágil e perecível é substituído por outro, livre e permanente, fazendo-me acreditar que, se somente esse novo corpo eu tivesse, não precisaria solar para poder voar.

*** Este artigo se refere ao primeiro vôo solo que a Fátima fez em 22/10/87 no Aeroclube de Brasília (Luizânia-GO)
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